.A crise que faz o Hospital das Clínicas agonizar e impõe
sofrimento a pacientes ultrapassou os corredores da unidade e agora está
instalada no estacionamento dos médicos, à vista de todos. Pilhas de sacos
plásticos pretos, entulhos e materiais hospitalares são jogados na parte de
trás do terreno, localizado na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife.
Membros amputados e sangue humano também são descartados como lixo comum,
contrariando as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). O hospital-escola da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) abriga
um lixão há quatro meses. E ensina o mau exemplo.
A
TV Jornal inicia hoje uma série intitulada HC – um hospital em crise. Na
primeira das três reportagens, a denúncia de que a perna direita de uma senhora
foi depositada no lixão, embrulhada num saco plástico e num pano. Deveria ter
sido incinerada, sepultada ou levada a um aterro sanitário dentro de um
recipiente lacrado, como é a forma correta de descartar resíduos infectantes. A
mulher teve que ser submetida a uma amputação, mas não resistiu e morreu em
seguida.
Outro vídeo, também obtido pela equipe de reportagem, mostra um carrinho de coleta de lixo sujo de sangue e material hospitalar. Como 11 dos 15 elevadores do hospital estão quebrados, os resíduos infectantes são transportados nos poucos que ainda funcionam e dividem o mesmo espaço com refeições, pacientes e funcionários. Além de membros amputados e sangue, também são classificados como resíduos infectantes drenos, sondas e gazes, por exemplo.
Em reserva, por receio de represálias, funcionários de dois
setores diferentes do HC confirmaram à equipe de reportagem que é comum o
descarte de partes de corpos humanos vindas diretamente do bloco cirúrgico. E
reclamaram dos riscos à saúde. “A situação é difícil tanto para o funcionário
quanto para os pacientes. É para o diretor sair do gabinete dele e olhar que
aqui tem seres humanos trabalhando e pacientes também”, lamentou um deles.
IRREGULARIDADES - Embora os funcionários da limpeza utilizem luvas
e máscara, o descarte do lixo hospitalar desobedece a resolução de número 33 da
Anvisa. Segundo a norma, os resíduos devem ser separados conforme a
classificação (comuns, infectantes, químicos, radioativos e perfucortante).
Depois, eles têm que ser armazenados dentro de recipientes (contêineres ou
tonéis) e só abertos após serem transportados para o aterro sanitário ou setor
de incineração.
Mas, no Hospital das Clínicas, a única diferença entre lixo orgânico - como
folhas e restos de comida - e o hospitalar é a cor do saco plástico. O primeiro
é embalado em sacolas pretas. Já os resíduos infectantes são guardados em sacos
brancos, junto ao lixão. Depositados numa espécie de garagem. Nas três vezes
que a equipe de reportagem foi à unidade, o portão estava aberto e alguns
tonéis, destampados. Vários gatos perambulavam pelo estacionamento onde está o
lixão, o que aumentava ainda mais os riscos de infecção.
A empresa contratada para fazer a coleta do material hospitalar, a Serquip,
recolhe os resíduos toda semana. Mas leva apenas os que estão depositados nos
16 recipientes do hospital. E nada mais, apesar de o HC produzir uma quantidade
superior de descartes.
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