A proposta de instalação de uma usina nuclear em Itacuruba,
no Sertão de Itaparica, foi debatida pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Alepe, em reunião
extraordinária na manhã desta segunda (7). Especialistas da área defenderam a
instalação do empreendimento, ressaltando o desenvolvimento que o projeto pode
levar à região. À tarde, o assunto repercutiu na Reunião Plenária, com
pronunciamento do deputado Antonio
Fernando (PSC), que recebeu apartes.
A ideia de construir uma usina nuclear em Itacuruba começou a
ser discutida em 2011, a partir de estudos promovidos por um programa de
expansão da energia nuclear brasileira. A cidade foi escolhida pela
Eletronuclear como a melhor opção para a instalação das primeiras usinas do
tipo na Região Nordeste.
Como o aumento da população e a diminuição das chuvas, a
matriz elétrica brasileira, que é 65% hidráulica, tem sofrido sérios
comprometimentos. A afirmação foi feita pelo diretor de Operações da Companhia
Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), João Henrique de Araújo Neto. “O
Nordeste tem vocação para ser uma região exportadora de energia elétrica, mas,
para isso, é necessário planejamento e uma matriz energética diversificada e
segura, que possa atender o consumidor a qualquer momento”, informou.
A professora Helen Khouri, do Departamento de Energia Nuclear
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apresentou detalhes sobre o uso
da energia nuclear nas áreas da saúde, indústria, agricultura e conservação de
alimentos. Para a especialista, a desinformação pode atrapalhar a chegada do
empreendimento a Itacuruba, fazendo a cidade perder uma oportunidade de
desenvolvimento.
“Nós tivemos o momento histórico da escravidão, mas agora há
os chamados ‘escravos tecnológicos’. Se nós não tomarmos cuidado, vamos ser
mais um daqueles países onde não se pode desenvolver as tecnologias de ponta e
continuaremos pagando royalties”, acredita Helen. A professora alertou,
ainda, para a falta de informação da população sobre a energia nuclear e
sugeriu que sejam feitas outras reuniões para que as pessoas possam saber mais
sobre o tema.
O engenheiro eletricista Carlos Henrique Mariz também
defendeu o projeto. Ele apresentou detalhes sobre a matriz energética mundial e
sobre a participação da energia nuclear nesse contexto. Segundo ele, esse
tipo de energia é uma das mais limpas e seguras. “Hoje são 444 usinas operando
no mundo há mais de 20 anos, 24 horas por dia”, contabilizou.
“Os três acidentes que ocorreram tiveram números de mortes
pequenos. As pessoas têm que se tranquilizar com relação a isso. O mundo todo
continua construindo usinas nucleares, que são a forma mais segura de produção
de eletricidade que o homem desenvolveu”, prosseguiu. Mariz mostrou, também,
dados sobre o baixo consumo de energia no Brasil e destacou que há uma relação
direta entre esse dado e o desenvolvimento econômico.
Tramitação – O deputado Alberto
Feitosa (SD) é autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 9/2019, que
permite a instalação de usinas nucleares em Pernambuco. Em defesa da matéria
que ainda tramita na Alepe, ele considera que não se pode prescindir de
investimentos que podem gerar milhares de empregos e trazer retorno financeiro
ao Estado e aos municípios.
Feitosa afirmou que o receio das pessoas em relação à
instalação de uma usina nuclear em Pernambuco é proporcional ao desconhecimento
que elas possuem sobre o assunto. Por isso, ele afirmou que vai sugerir ao
Governo do Estado que promova ações educativas que ajudem a tirar as dúvidas da
população. “O esclarecimento é fundamental para que a gente possa não só ter o
equipamento, mas, também, oportunizar às pessoas opinar de maneira correta.”
O eventou contou ainda com a participação do prefeito de
Itacuruba, Bernardo Maniçoba, dos deputados Antonio Fernando, Henrique Queiroz Filho (PL), José
Queiroz (PDT), Joel
da Harpa (PP), Sivaldo
Albino (PSB), Waldemar
Borges (PSB) e William
Brígido (REP), além de representantes da Universidade Federal Rural de
Pernambuco (UFRPE) e Universidade de Pernambuco (UPE).
Entre os dias 16 e 18, a Comissão de Ciência e Tecnologia da
Alepe vai visitar as instalações das usinas nucleares de Angra dos Reis, no Rio
de Janeiro. O objetivo é conhecer os detalhes do funcionamento e das medidas de
segurança e proteção ambiental do empreendimento.
Plenário – À tarde, Antonio Fernando levou o
assunto à tribuna, ao elogiar as discussões técnicas travadas na audiência
pública, e para defender a instalação do equipamento em Itacuruba. “Acredito
que a população da região é que deve decidir, mas, para ela tomar a decisão, é
preciso que o assunto seja esclarecido de maneira objetiva. Estou à disposição
para trabalhar nesse sentido”, afirmou o deputado do PSC.
O parlamentar esclareceu que os rejeitos produzidos pela
usina nuclear – objeto de preocupação de muitos dos que se opõem ao projeto –
podem ser vendidos para outros países, que os reutilizam. “O urânio utilizado
pela usina tem valor agregado, e países como o Japão têm interesse em
importá-lo”, informou. Sobre os riscos da planta, Fernando garantiu, a título
de comparação, que eles são menores que os oferecidos pelo Aeroporto
Internacional do Recife/Guararapes à população que mora na Região Metropolitana.
O discurso ganhou os apartes dos deputados Joel da
Harpa, Doriel Barros (PT), Wanderson Florêncio (PSC), João
Paulo (PCdoB), Priscila
Krause (DEM), Alberto Feitosa, Henrique Queiroz Filho e Fabrizio
Ferraz (PHS). Para Joel da Harpa, os investimentos do projeto –
estimados em R$ 30 bilhões – são fundamentais para a região, especialmente em
um momento de crise econômica.
Já Doriel Barros propôs a realização de uma nova audiência
pública, dessa vez no município de Itacuruba. “Temos que ouvir a população e os
movimentos sociais”, argumentou o petista. “Os resíduos nucleares precisam ser
monitorados por dez mil anos. Não podemos comprometer as próximas gerações com
um lixo produzido por nós”, pontuou Florêncio. João Paulo resgatou, como
comparação, o projeto de construção da Barragem de Itaparica, que inundou a
antiga cidade de Petrolândia (Sertão), em 1988. “Temos que nos atentar porque
os investimentos prometidos à população, naquela época, não foram entregues”, frisou.
“Nossos debates devem buscar o desfazimento de mitos e não
podem se pautar na ideologização. O trabalho precisa ter como fim o bem
coletivo”, opinou Priscila Krause. “Os técnicos que participaram da audiência
pública garantiram que o material nuclear não terá contato com as águas do Rio
São Francisco”, esclareceu Alberto Feitosa, respondendo às preocupações
ambientais apresentadas por alguns parlamentares. “O projeto pode transformar a
realidade econômica de toda uma região”, destacou Queiroz Filho. “Saber que a
população local não ficará com a responsabilidade de guardar o material tóxico,
como esclareceu Antonio Fernando, foi um avanço desse debate”, concluiu Ferraz.

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